Sérgio Gaspar se formou em economia na PUC do Rio de Janeiro e morou na capital fluminense por mais de 20 anos, pensando em seguir carreira em banco ou no mercado financeiro. Mas ouviu o chamado do seu pai e aceitou o desafio de comandar um pequeno hotel em Natal (RN) e com isso pode conhecer em detalhe cada área de operação, até que veio o grande projeto: o luxuoso hotel Ocean Palace.
E com muito espírito empreendedor e legado associativista, junto com seu pai e irmãos posicionou o empreendimento como um dos melhores meios de hospedagem no Brasil e não parou mais de crescer e sempre alcançar novos desafios.
E o atual é comandar a principal entidade da hotelaria independente no Brasil dando continuidade ao trabalho de Manoel Linhares que esteve no comando por quatro mandatos e deixa um grande legado.
Para compor a nova diretoria, Gaspar seguiu a mesma lógica: equilíbrio, representatividade e competência. Trouxe nomes de peso de várias regiões, gente que conhece profundamente a hotelaria e que têm experiência prática. Foram escolhas feitas a muitas mãos, escolhidas com cuidado, para que cada estado e cada realidade estejam bem representados. A ideia é formar uma equipe dos sonhos em escala nacional. Confira nessa entrevista exclusiva as expectativas e os desafios de Sérgio Gaspar, o novo timoneiro da ABIH Nacional.
Revista Hotéis - Como e quando você entrou no segmento hoteleiro?
Sérgio Gaspar - Eu costumo dizer que minha entrada na hotelaria foi planejada, mas, também, foi um pouco obra do destino. Eu fiz Economia na PUC do Rio de Janeiro, e morei lá por mais de 20 anos, pensando em seguir carreira em banco ou no mercado financeiro. Mas, na ocasião, meu pai já tinha um pequeno hotel em Natal, uma espécie de pré-hotel, e me chamou para assumir a responsabilidade. Aceitei o desafio, mergulhei de cabeça passando por todas as áreas, conhecendo cada detalhe da operação, até que veio o grande projeto: o Ocean Palace, um cinco estrelas arrojado, que se tornou referência no Brasil. Para me preparar, passei um ano (1995/96) nos Estados Unidos fazendo uma pós-graduação em Hospitality Management, na International University (FIU), na Flórida, o que foi transformador.
A paixão pela arte de bem acolher continua a mesma desde o início. Aprendi cedo que hotelaria é, acima de tudo, lidar com pessoas. Não existe sucesso sem uma equipe motivada. No Ocean Palace, criamos o que chamamos de “Dream Team”, uma equipe diferenciada, cheia de energia e comprometimento. Fazemos festas, premiações, valorizamos cada colaborador. Sempre acreditei que o cliente interno precisa estar satisfeito para que o cliente externo, o hóspede, receba o melhor atendimento. Esse princípio nos guiou e continua sendo fundamental em todos os empreendimentos que tocamos, como o Costeira Palace e outros projetos que virão.
R.H - A paixão pela arte do bem acolher continua a mesma desde que iniciou? E como analisa as mudanças ocorridas desde que entrou no segmento até os dias atuais?
S.G - Quanto às mudanças no setor, vejo que a tecnologia e a sustentabilidade são os grandes marcos desta evolução. Hoje não existe hotel competitivo que não seja eco-friendly, que não esteja adaptado às exigências ambientais. No Ocean Palace, por exemplo, implementamos certificações ISO 9001 e 14001, e práticas como o “Clean as you go”, em que todos os funcionários, do diretor ao colaborador mais simples, têm responsabilidade de manter o ambiente limpo e organizado. Isso cria cultura, disciplina e respeito ao espaço coletivo.
Além disso, a digitalização não só trouxe novas formas de relacionamento com o hóspede, desde reservas online até sistemas de gestão integrados, como também transformou a rotina dos departamentos comerciais e operacionais. Hoje, práticas como o uso de inteligência artificial para prever demandas, a automação de processos internos, a análise de dados para entender melhor o comportamento do cliente e a aplicação da Internet das Coisas (IoT) em áreas como climatização e manutenção preventiva já fazem parte do dia a dia da hotelaria. Essa revolução tecnológica, alinhada às exigências de sustentabilidade e eficiência energética, abriu espaço para experiências cada vez mais personalizadas e inovadoras. Mas, no fundo, a essência não mudou: o que faz a diferença é o calor humano, o sorriso genuíno, a atenção ao detalhe. A tecnologia ajuda, mas não substitui o olhar acolhedor, nada substitui o homem.
R.H - Você acaba de tomar posse como Presidente da ABIH Nacional para o biênio 2026/2027. O que o levou a aceitar esse desafio?
S.G - Eu até brinco que não sei direito o que me levou a aceitar esse desafio. Aceitei por impulso, porque sempre vi o Manelzinho, nosso baixinho querido, como uma unanimidade, uma referência. Cheguei a ficar em dúvida, mas como meu nome foi unanimidade, fui entendendo que são os desígnios de Deus. Muitas vezes somos testados frente a uma grande causa, mas são missões que Ele nos dá. Claro que é um desafio enorme. Minha esposa até brincou que eu vou me ausentar mais de casa, porque sei que vou viajar muito, mas ela me apoiou desde o início. Venho de uma família muito ligada ao associativismo: meu pai sempre participou ativamente de entidades de classe, foi governador do Rotary no distrito 45.00, que engloba os estados do Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco, logo que inauguramos o Ocean Palace. O meu irmão Rui já presidiu a ABIH-RN e foi Secretário de Turismo do Rio Grande do Norte; o Arnado, presidiu o Sinduscon RN - Sindicato da Construção Civil e, eu mesmo, já estive na diretoria da ABIH Nacional nas gestões de Luiz Carlos Nunes, Eraldo Alves e do Sr. Álvaro Bezerra de Mello, além de ter sido vice-presidente da entidade nos últimos dois anos. É verdade que meus irmãos ficaram um pouco reticentes, mas como eles também têm essa veia associativista, acabaram entendendo e apoiando. E, sem dúvida, a grande amizade que construí com o Manelzinho e sua família foi fundamental para que eu seguisse adiante com confiança.
O que mais me anima é saber que não estou sozinho. Montamos uma equipe que considero um verdadeiro “Dream Team” da hotelaria brasileira, formado por hoteleiros de todo País, escolhidos a dedo, em parceria com o Manelzinho e a antiga diretoria. É uma presidência e uma diretoria equilibrada, representativa, que traz experiência e renovação ao mesmo tempo.
Acredito que a hotelaria brasileira precisava de continuidade, mas também de novos rumos. Hoje, a ABIH Nacional tem a missão de ampliar o diálogo com o poder público, fortalecer políticas voltadas exclusivamente para o turismo e mostrar que o setor é estratégico para o desenvolvimento econômico e social do Brasil. Eu acredito muito nisso. O turismo gera emprego, renda, movimenta a economia e mostra ao mundo a força da nossa cultura e da nossa hospitalidade. Então, se no começo eu aceitei meio “sem pensar”, agora eu digo com convicção: é uma honra e uma responsabilidade enorme. Vamos trabalhar para que a hotelaria brasileira esteja cada vez mais unida, moderna e reconhecida como protagonista no desenvolvimento do País.
“ABIH Nacional tem a missão de ampliar o diálogo com o poder público, fortalecer políticas voltadas exclusivamente para o turismo e mostrar que o setor é estratégico para o desenvolvimento econômico e social do Brasil”
R.H - Você foi eleito por unanimidade em chapa única para a nova gestão da ABIH Nacional. Isso demonstra que a hotelaria independente se mantém unida de Norte a Sul do Brasil? Que análise você faz e quais os critérios que adotou para compor a nova diretoria da entidade em sua gestão?
S.G - Eu sempre disse que só aceitaria esse desafio se fosse consenso. Meu pai, Arnaldo Gaspar - o Arnaldão - que foi governador do Rotary em um distrito que englobava o Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco, é minha grande inspiração. Ele sempre me ensinou que liderança é serviço, é dedicação, e isso ficou marcado em mim e nos meus irmãos, Arnaldo Júnior e Rui também seguiram caminhos de associativismo. Então, quando vi que a eleição foi por unanimidade, em chapa única, entendi que havia uma união real da hotelaria independente de Norte a Sul do Brasil. Se fosse disputa, eu não iria, porque esse é um trabalho abnegado, que exige afastar-se um pouco das próprias empresas para servir ao coletivo. A unanimidade mostra que o setor está unido, que existe confiança e que todos querem caminhar juntos. E isso me dá ainda mais responsabilidade. Eu brinco que o “baixinho”, nosso querido Manoelzinho, saiu da ABIH, mas a ABIH não saiu dele e ele vai estar sempre conosco, porque deixou um legado muito forte.
Quanto aos critérios para compor a diretoria, eu quis seguir a mesma lógica: equilíbrio, representatividade e competência. Trouxemos nomes de peso de várias regiões, gente que conhece profundamente a hotelaria e que tem experiência prática. Foram escolhas feitas a muitas mãos, escolhidas com cuidado, para que cada estado e cada realidade estejam bem representados. A ideia é formar uma equipe dos sonhos em escala nacional.
Considero que os primeiros meses são de transição e de respeito ao trabalho que já vinha sendo feito e dar seguimento aos trabalhos que já estão sendo realizados. A hotelaria brasileira precisa estar cada vez mais unida, moderna e preparada para os desafios da indústria 4.0, da sustentabilidade e da competitividade global. E é isso que vamos buscar: dar o melhor da gente, sempre com a arte de bem receber como nossa maior força.
R.H - Qual é o papel de sua família para continuar empreendendo na hotelaria e assumir o comando da ABIH Nacional?
S.G - Como diz meu pai, a luta é grande. E justamente por isso faço questão de destacar o papel fundamental da minha família na decisão de assumir a presidência da ABIH Nacional. Esse é um desafio que exige dedicação, tempo e energia, e eu só pude aceitá-lo porque tenho ao meu lado pessoas que me dão suporte e confiança. Quero falar dos meus três filhos, Júlia, Gabriel e a pequena Denise, que são meu maior tesouro. Sei que eles vão sentir ainda mais a ausência do pai, mas também sei que compreenderão a importância desse momento. Minha esposa, Cristine, sempre esteve ao meu lado, me apoiando em todas as decisões, e será novamente meu alicerce nessa nova etapa.
Meus pais, Arnaldo e Denise, foram essenciais para que eu tivesse coragem de aceitar essa missão. Eles sempre me ensinaram que a luta é grande, mas que com trabalho e união é possível vencer. Também não posso deixar de mencionar meus irmãos: Rui Gaspar, que atua na hotelaria, Arnaldo Júnior, meu pai e meu sobrinho Bernardo, que estão à frente da construtora da família. Eles me deram a tranquilidade necessária para assumir um cargo tão importante, já que inevitavelmente precisarei me ausentar um pouco mais das empresas.
Reconheço que o ‘baixinho’, meu antecessor, é insubstituível. Ele deixou um legado que merece respeito e admiração. Mas com uma equipe forte e dedicada, vou me empenhar para estar à altura desse desafio. Cada um atuando na sua parte, tenho certeza, de que conseguiremos fazer jus à responsabilidade de liderar a ABIH Nacional e fortalecer ainda mais a hotelaria brasileira.
Quero agradecer muito à minha diretoria. Esse desafio eu divido com cada um deles, escolhidos a dedo. Eles sabem que podem contar comigo, mas eu também vou contar com eles. Sempre lembro de uma frase atribuída a um presidente americano: ‘Não pergunte o que a ABIH pode fazer por você, mas o que você pode fazer pela ABIH’. Isso vale para cada diretor e para cada hoteleiro do Brasil. Uma associação forte se constrói com união e participação. Eu costumo dizer que quero ser campeão, mas não quero ser o artilheiro. Quero ganhar o campeonato com o time inteiro, deixando que todos façam gols. A responsabilidade não pode ficar só no presidente, tem que ser compartilhada. Assim como num time de futebol, eu quero distribuir a bola e ver todos brilhando. A luta é grande, mas a vida é bela. O desafio é enorme, mas estamos confiantes.
R.H - Como você avalia a gestão de quatro mandatos consecutivos do Manoel Linhares na presidência da ABIH Nacional? Quais os legados e lições aprendidas com o ‘Baixinho’, como ele é carinhosamente conhecido?
S.G - Avaliar a gestão do Manoel Linhares não é tarefa fácil, porque nesses oito anos ele praticamente se confundiu com a própria ABIH Nacional. Repito sempre: a ABIH saiu do Baixinho, mas o Baixinho não saiu da ABIH. Ele viveu intensamente esse papel, dedicou-se de corpo e alma. Para se ter uma ideia, nesses quatro mandatos consecutivos, ele mesmo dizia que só conseguiu visitar seus hotéis duas vezes. Eu estava com ele em São Paulo quando nasceu a netinha dele, e ele me disse: ‘Sérgio, não pude nem vê-la ainda, estou aqui trabalhando pela ABIH’. O que dizer de um homem desses?
Apesar das adversidades, Manoel trabalhou incansavelmente para fortalecer a entidade, ampliar sua representatividade e consolidar conquistas que hoje posicionam o setor como protagonista do desenvolvimento econômico e social do País. Entre os avanços institucionais, conquistou uma base sólida com a aquisição da sede própria em Brasília, acompanhada de quinze salas comerciais, que asseguram a sustentabilidade financeira da entidade e dão tranquilidade para que as próximas gestões sigam promovendo a atividade-fim da ABIH Nacional: representar e defender a hotelaria brasileira, articulando políticas públicas e garantindo que o setor seja cada vez mais reconhecido como estratégico.
“O Manoel Linhares trabalhou incansavelmente para fortalecer a entidade, ampliar sua representatividade e consolidar conquistas que hoje posicionam o setor como protagonista do desenvolvimento econômico e social do País”
Graças ao trabalho dele, a indústria nacional de hotéis independentes, através da ABIH Nacional, integra hoje o seleto grupo de membros da ONU Turismo e é representada no Congresso Nacional pela Frente Parlamentar Mista da Hotelaria Brasileira, onde deputados federais e senadores vêm consolidando e demonstrando a força da hotelaria como um dos pilares do turismo nacional. Em nome desse conjunto, Manoel foi saudado em todo o País e recebeu o título de cidadão honorário em aproximadamente 15 estados e destinos, reconhecimento que simboliza a confiança no trabalho coletivo e na força do associativismo.
Muito trabalho e determinação ainda faltam para desburocratizarmos o setor e tornarmos nosso ambiente legislativo e de negócios mais amigável, com regras e políticas públicas específicas, linhas de crédito direcionadas, programas de qualificação profissional e taxas que permitam investimentos essenciais para sermos competitivos no mercado nacional e internacional. Mesmo após termos vencido batalhas importantes no campo legislativo - como a redução de 40% nas alíquotas de referência para o setor na Reforma Tributária, a inclusão dos hotéis já existentes no projeto de lei que regulamenta cassinos no Brasil e a superação dos números pós-pandemia - precisamos continuar firmes para manter o setor pulsante e em contínuo crescimento.
R.H - Parodiando a hotelaria, podemos considerar a gestão do Baixinho no comando da ABIH Nacional como cinco estrelas?
S.G - A avaliação da gestão dele é de seis estrelas. Sei que a hotelaria só vai até cinco, mas alguns hotéis se autodenominam seis estrelas pelo luxo e requinte. Pois eu digo que o Baixinho foi um presidente seis estrelas. Como profissional, fez história. Como ser humano, é ainda mais extraordinário. Ele tem uma energia ímpar, contagiante, e eu procuro sempre estar em contato com ele porque essa energia me inspira.
Eu brinco que, ao aceitar esse desafio, não estava com a ‘cuca muito boa’, mas espero que o Baixinho me ajude a manter o equilíbrio nos primeiros meses, me orientando nos caminhos certos. Gosto muito de uma frase de Santo Agostinho que diz: ‘Sem olhar pra trás, sem olhar pros lados, sem marcar passo, canta e caminha’. Mas nesse caso eu vou olhar pra trás e pros lados, porque o legado dele merece ser seguido e respeitado.
Não é fácil assumir depois de uma gestão tão marcante. É um desafio enorme, mas graças a Deus tenho meus irmãos para me ajudarem nas empresas, porque sei que vou me ausentar ainda mais, viajando para Brasília, visitando as ABIHs pelo Brasil, participando de fóruns e eventos no Congresso. É um trabalho abnegado, um verdadeiro diletantismo, mas que vale a pena quando se está imbuído de um bom propósito.
Como dizia meu pai, ‘o mar calmo não faz bom marinheiro’. E eu acredito nisso. A vida é bela e cheia de desafios, e cabe a nós aceitá-los. A gratidão não precisa de crédito, mas aqui registro a minha eterna gratidão ao Baixinho, ao nosso Manelzinho, por tudo o que fez pela hotelaria brasileira e por todos nós.
“Muito trabalho e determinação ainda faltam para desburocratizarmos o setor e tornarmos nosso ambiente legislativo e de negócios mais amigável, com regras e políticas públicas específicas, linhas de crédito direcionadas, programas de qualificação profissional e taxas que permitam investimentos essenciais”
R.H - Quais foram as conquistas do setor nos últimos anos e a que atribui? A união das entidades co-irmãs fez a diferença nos pleitos?
S.G - Eu considero que o momento da hotelaria é positivo, sempre procuro ver o copo meio cheio. A reforma tributária não foi fácil, mas foi uma grande vitória do Manelzinho, o nosso Baixinho. Conseguimos reduzir 40% nas alíquotas, e isso foi uma conquista pessoal dele e de todos que o apoiaram, que acompanhei de perto. Estive no Congresso, participei de reuniões com senadores e deputados, e vi de perto o corpo a corpo que foi feito. Eu mesmo gastei muita sola de sapato, e se eu gastei, imagina o Baixinho.
Nesse período, fui várias vezes a Brasília, mobilizamos os hoteleiros e entidades ligadas a hospitalidade de todo o País, e conseguimos mostrar a força do setor. Essa redução não foi exatamente o céu que desejávamos, mas foi um resultado positivo. Foi o ideal possível naquele momento. Podemos dizer que ‘passamos de ano’ com essa conquista.
Tudo isso só foi possível graças à atuação da ABIH, do Manelzinho e dos hoteleiros e entidades que estiveram juntos nessa luta. Eu me incluo nesse esforço coletivo. Foi um trabalho de persuasão, não de pressão: mostramos números, dados concretos e conseguimos evitar que a carga tributária triplicasse, o que aconteceria com PIS, COFINS e ISS. Houve aumento, sim, mas conseguimos uma redução significativa que foi muito importante para a sobrevivência e competitividade da hotelaria brasileira.
R.H - Quais são as expectativas de sua gestão, os desafios e as conquistas que pretende alcançar?
S.G - A minha gestão, ou melhor, a nossa gestão, é formada por um grande time da hotelaria nacional. Eu não vim para substituir um craque como o Manoel. A expectativa é de continuidade e de uma gestão participativa com as ABIH´s Estaduais e, assim, pretendo honrar e dar seguimento às conquistas de meu antecessor, e conseguir algumas vitórias que, mesmo que não sejam tantas, faço questão que sejam sólidas e permaneçam.
Temos desafios grandes para estabelecer um ambiente legislativo amigável, como contrapor as chamadas ‘leis jabuticaba’, que só existem no Brasil. Em outros países não há esse tipo de legislação. Um exemplo é a acessibilidade: na Europa, nos Estados Unidos, na França, Itália, Suíça, a regra é dois apartamentos adaptados a cada 100. No Brasil, colocaram cinco. Essas e muitas outras disparidades devem ser combatidas, uma vez que o Brasil para ser competitivo precisa garantir segurança jurídica, com leis compatíveis com o resto do mundo e não criar regras que só existem aqui.
Os desafios de uma gestão à frente de uma entidade como a ABIH Nacional, que vai completar 90 anos de atuação, são grandes, mas as possibilidades de conquistas também. E uma grande conquista estará em manter o que já conseguimos, com humildade e serenidade. Seguirei a linha do Baixinho, ouvindo sempre os diretores e todos os presidentes das ABIH´s. Quando várias mentes pensam juntas, a chance de errar é menor. Uma pessoa só pode errar, mas quando muitos pensam, o erro se reduz.
R.H - Como enxerga o atual momento da hotelaria? Os impactos da reforma tributária é uma preocupação, assim como a regulamentação das empresas de locação como o Airbnb?
S.G - É inegável que o Airbnb é uma empresa admirável, com uma história de crescimento disruptivo. Mas esse crescimento acelerado só foi possível porque não houve regulamentação e nem cobrança de impostos. Qualquer negócio que não paga tributos cresce rápido, mas isso não é sustentável nem justo. Por não ser tributado, a modalidade virou um excelente negócio e, em vez de investir na construção de pousadas e hotéis, muitos passaram a erguer prédios inteiros voltados exclusivamente para o Airbnb.
Como esse tipo de hospedagem se tornou tendência mundial, as cidades já perceberam que estão perdendo receita e estão se preparando para enfrentar esse desafio. A própria Receita Federal passou a olhar com mais atenção para esse contribuinte, e aqueles que possuem diversos apartamentos destinados ao Airbnb inevitavelmente serão tributados. Essa sempre foi a nossa defesa: não se trata de ser contra a inovação, mas de proteger a hotelaria diante de uma concorrência desleal.
“É inegável que o Airbnb é uma empresa admirável, com uma história de crescimento disruptivo. Mas esse crescimento acelerado só foi possível porque não houve regulamentação e nem cobrança de impostos”
Isso distorce o mercado. Em destinos turísticos importantes, como Barcelona e Nova York, já existem legislações municipais e estaduais que regulamentam essa prática. É esse caminho que precisamos seguir no Brasil: trazer modelos de regulação que funcionam lá fora e adaptá-los à nossa realidade.
Acho que toda concorrência justa é bem-vinda. O mercado é sábio e sabe diferenciar o que um hotel ou resort oferece em relação a um apartamento no Airbnb. As experiências são incomparáveis. No entanto, é fundamental que exista equidade tributária. Não podemos permitir que o Airbnb continue praticando uma concorrência desleal ao não pagar impostos compatíveis a seu lucro. E isso vale para todos os segmentos. A hotelaria brasileira precisa competir em condições justas e é isso que defendemos.
R.H - O setor hoteleiro está vivendo uma escassez de mão-de-obra que pode comprometer a qualidade dos serviços prestados, mas muitas vagas estão disponíveis no mercado. A que você atribui o desinteresse em trabalhar no setor em que sempre atraiu pelo glamour?
S.G - A escassez de mão de obra não é um fenômeno exclusivo da hotelaria, mas uma realidade que afeta diversos setores no Brasil, como a construção civil. O mercado, naturalmente, tende a se ajustar, e acredito que essa dificuldade será gradualmente reduzida.
Na hotelaria, existe uma característica única: é um segmento que oferece oportunidades reais de ascensão profissional. Muitas vezes, um colaborador inicia sua trajetória como auxiliar de serviços gerais, mensageiro ou bell captain e, com dedicação e talento, pode chegar a gerente geral ou até diretor de uma rede hoteleira. Isso acontece porque a hotelaria revela líderes de forma muito clara, pela maneira como tratam o cliente, pela postura e pelo sorriso no atendimento.
Nas nossas empresas, temos exemplos inspiradores de funcionários com mais de 30 anos de casa, que conhecem o hotel melhor do que qualquer gestor. Essa vivência diária com o hóspede é um patrimônio valioso para o setor.
Não acredito que exista um desinteresse em trabalhar na hotelaria. O que precisamos é investir mais em treinamento e qualificação. Em algumas regiões, como no Nordeste, já vemos mão de obra mais preparada, fruto de maior investimento em capacitação e melhores salários.
A hotelaria sempre carregou consigo um certo glamour e, sobretudo, a possibilidade de ascensão social. Por isso, continuo acreditando que o setor atrai e seguirá atraindo profissionais comprometidos e apaixonados pelo que fazem.
R.H - Você como empresário bem sucedido na hotelaria, como analisa os desafios de empreender no setor? Quais são os gargalos existentes e na condição de presidente da entidade máxima dos hotéis independentes pretende articular ações para minimizar esses impactos?
S.G - Os desafios de empreender na hotelaria no Brasil passam, principalmente, pela questão das licenças. Licenças de instalação, ambientais e de operação ainda representam um grande gargalo. Hoje, para realizar uma obra, ampliar ou fazer um retrofit, que considero essencial a cada sete ou dez anos para manter os empreendimentos atualizados, o processo é extremamente burocrático.
Outro ponto crítico é a multiplicidade de órgãos reguladores. Muitas vezes, cada fiscalização exige algo diferente, sem um padrão definido. Já vivenciamos situações em que equipes distintas pediam requisitos divergentes, o que gera insegurança e custos adicionais. Isso não pode acontecer. É fundamental que exista uma regra clara e uniforme, válida para todos, para que o jogo seja justo. Infelizmente, no Brasil ainda criamos essas ‘jabuticabas’ regulatórias que dificultam o desenvolvimento do setor.
Como presidente da ABIH Nacional, acredito que precisamos articular junto às ABIHs estaduais para buscar soluções práticas. Uma das ações que pretendemos implementar é o benchmarking entre as entidades regionais, compartilhando boas práticas e experiências que possam ser replicadas em todo o País. Dessa forma, poderemos fortalecer a hotelaria independente e reduzir os impactos desses gargalos, criando um ambiente mais favorável ao empreendedorismo no setor.
“Os desafios de empreender na hotelaria no Brasil passam, principalmente, pela questão das licenças. Licenças de instalação, ambientais e de operação ainda representam um grande gargalo”
R.H - Como você enxerga a hotelaria independente no Brasil nos próximos anos? E como se tornar competitivo frente ao interesse cada vez maior das grandes redes em incorporar os hotéis independentes para fazer a administração?
S.G - A hotelaria independente é forte. Vemos várias redes independentes se consolidando, como o nosso grupo Ocean Palace/Costão Palace, o Grupo Pontes de Hotéis, o Royal Palm, a Rede Windsor, a Rede Arena e tantos outros. Quando há trabalho e vontade, as pessoas conseguem crescer. É claro que as grandes redes têm interesse em incorporar hotéis independentes, mas isso faz parte do mercado. Se for uma relação de ganha-ganha, não vejo problema. Sempre digo que não devemos temer a competição. Orlando de Souza, do FOHB, é um craque, e meu pai sempre dizia: ‘Quanto mais cabra, mais cabrito’. Ou seja, as pessoas precisam empreender, sair da zona de conforto. O Brasil é grande, é bonito, tem diversidade e desafios. Eu sou otimista: o sol nasce para todos e há espaço para todo mundo. A hotelaria independente tem feito um trabalho fundamental, muito importante, mas não é fácil. Eu acredito muito na força da hotelaria independente, especialmente no poder dos treinamentos.
O hoteleiro precisa pensar no hotel como pensa em uma fazenda: fazendo o tempo todo. É preciso copiar o que dá certo e melhorar, e evitar repetir os exemplos ruins. Também quero destacar a importância da arte de bem receber. O funcionário precisa estar sempre com um sorriso no rosto, cumprimentando o hóspede. No lazer, o cliente deixa os problemas em casa e busca momentos únicos, de magia. No corporativo, ele quer eficiência: uma cama boa, silêncio, atendimento ágil. Em ambos os casos, o diferencial está na hospitalidade.
Eu gosto de fazer um paralelo com a Disney. Já estive lá mais de 30 ou 40 vezes e sou apaixonado pelo jeito deles de encantar o cliente. Todo ano há uma novidade, e é isso que faz o hóspede voltar. Os hotéis independentes precisam pensar da mesma forma: investir em modernização, inovação e treinamento constante. Sem treinamento e motivação, ninguém chega a lugar nenhum. É preciso dar empoderamento aos colaboradores, permitindo que eles tenham poder de decisão. Recentemente vi uma grande rede americana que aumentou muito a satisfação dos clientes ao dar autonomia financeira para que cada funcionário resolvesse problemas sem depender do gerente. Isso pode ser aplicado também na hotelaria independente.


