São Paulo tradicionalmente conhecida como o motor do econômico do Brasil tem despontado cada vez mais como um dos principais polos turísticos do Brasil, reunindo negócios, lazer e grandes eventos em uma agenda cada vez mais intensa. Dados recentes mostram que a capital paulista teve crescimento nos índices durante o período de Carnaval e também tem se destacado como uma das principais portas de entrada do para o turista estrangeiro no Brasil.
Esse movimento tem impacto direto na hotelaria, que passou a contar com uma demanda mais equilibrada ao longo da semana e ao longo do ano. Nesta entrevista exclusiva à Revista Hotéis, Marcos Vilas Boas, Presidente da ABIH-SP, fala sobre o crescimento do turismo de lazer na capital, o desempeno da hotelaria e os principais desafios do setor.
Revista Hotéis: Cada vez mais São Paulo tem se consolidado como um polo turístico completo, envolvendo tanto o turismo de negócios quanto o turismo de lazer. Como isso impacta a hotelaria?
Marcos Vilas Boas: De forma muito positiva. O fato de a cidade também estar se consolidando como destino de lazer resolve uma das grandes dores da hotelaria corporativa, que era a ociosidade nos finais de semana. Para nós, são dois tipos de turismo complementares, não excludentes. Essa combinação ajuda os hotéis a manter uma média de ocupação muito mais alta.
RH: Com isso, o mercado consegue se manter aquecido ao longo de todo o ano?
MVB: Sem dúvida. Em São Paulo, o turismo de lazer ainda não é o carro-chefe — e talvez nunca seja —, mas é um complemento muito bem-vindo. Naturalmente, os hotéis precisam se preparar, porque o atendimento ao público de lazer é diferente do corporativo. As expectativas em relação ao produto e aos serviços também mudam.
RH: Como atender o chamado cliente híbrido, que viaja a negócios e estende a estadia ou traz a família?
MVB: A hotelaria já trabalha com esse perfil há algum tempo, mas hoje a incidência é maior, porque a cidade oferece mais atrativos. Os hotéis precisam criar estratégias para reter esse cliente. Uma delas é estender a tarifa corporativa, que normalmente é mais vantajosa, para o fim de semana. Outra é facilitar programas e experiências. Se o hotel atua como um hub de informações e serviços, pode ajudar o hóspede a organizar visitas a restaurantes, shoppings ou museus, além de atender a família que o acompanha.
“Os hotéis precisam criar estratégias para reter esse cliente. Uma delas é estender a tarifa corporativa, que normalmente é mais vantajosa, para o fim de semana”
RH: No período de Carnaval, São Paulo registrou bons indicadores de ocupação e diária média. A cidade também tem atraído público para shows, festivais e eventos esportivos. Como a hotelaria pode aproveitar melhor essa demanda?
MVB: Podemos dividir o turismo de acordo com a motivação da viagem em três grandes grupos: negócios, lazer e eventos. No primeiro estão as pessoas que vêm trabalhar na cidade; no segundo, quem vem passear; e no terceiro, aqueles que viajam para participar de eventos específicos. São Paulo tem hoje uma agenda impressionante de eventos: feiras, congressos, shows, festivais como Lollapalooza e The Town, além de eventos gigantescos, como a Fórmula 1. Esses três grupos são bem definidos, mas não são excludentes — são complementares.
“Podemos dividir o turismo de acordo com a motivação da viagem em três grandes grupos: negócios, lazer e eventos”
RH: Qual é a importância do trabalho de entidades como o Visite São Paulo, a Setur-SP e o Conturesp?
MVB: É fundamental. O Visite São Paulo faz um trabalho muito importante para posicionar a cidade como destino turístico. A agenda gigantesca de eventos que temos hoje se deve muito ao trabalho do Toni Sando e de sua equipe. Também é importante destacar o papel dos centros de convenções e das arenas de eventos, que são fruto de investimentos feitos por empresários que acreditaram nesse potencial.
Além disso, o Visite São Paulo envia semestralmente aos hotéis um calendário detalhado de eventos, com expectativa de público e localização. A Setur-SP também é bastante organizada. Na ABIH-SP, fazemos essa informação chegar aos nossos associados, porque a ocupação hoteleira é construída no longo prazo. O hotel não gera demanda — ele responde à demanda.
RH: O planejamento é essencial para o setor?
MVB: Sem dúvida. Tudo o que estamos falando envolve planejamento. Não apenas dos hotéis, mas de um conjunto de ações coordenadas entre entidades e poder público. É assim que se constrói um mercado turístico forte como o de São Paulo.
RH: Como você avalia o crescimento do turismo de lazer na capital paulista?
MVB: É um fenômeno relativamente recente. Observamos um crescimento significativo no pós-pandemia e, no início, havia dúvidas se seria algo temporário. No entanto, acabou se consolidando como uma tendência permanente.
RH: Outro movimento relevante é o aumento do turista estrangeiro no Brasil. Como a hotelaria precisa se preparar para esse público?
MVB: São Paulo se tornou um grande hub da América do Sul, principalmente pela quantidade de voos internacionais que chegam ao Aeroporto de Guarulhos. Muitos turistas entram pelo Brasil por aqui e acabam passando algum tempo na cidade antes de seguir viagem ou voltar para casa. Também há a internacionalização dos negócios, com empresas estrangeiras instaladas no País, o que gera fluxo corporativo que acaba se estendendo para o lazer. Para receber esse público, é necessário preparo. Falar inglês já não é diferencial, é uma obrigação. E agora também vemos um aumento de visitantes asiáticos e de turistas da América do Sul, especialmente argentinos.
“Para receber os turistas de negócios, falar inglês já não é diferencial, é uma obrigação”
RH: São Paulo também recebeu novas marcas de luxo, como Rosewood, W e Pulso. Como você enxerga esse movimento?
MVB: São Paulo tem público para esse tipo de produto. A chegada dessas marcas é uma resposta à demanda existente. São hotéis com conceito semelhante ao que vemos em grandes cidades dos Estados Unidos e da Europa. Mas é um segmento naturalmente limitado, porque a exclusividade faz parte do produto.
RH: E como está o desempenho da hotelaria independente?
MVB: A hotelaria independente vai bem. Ela tem uma característica muito interessante, que é não se prender a padrões. Ela não precisa se prender a padrões pré-definidos por uma rede, por exemplo. Mas a hotelaria independente pode ser mais aconchegante, pode ter as características locais mais bem definidas, tem esse diferencial. A hotelaria de rede, também é muito boa, mas muitas vezes, você recebe sempre a mesma coisa. Um produto sempre igual em todos os lugares. E isso é bom para um determinado tipo de cliente. Mas para outros clientes, você ter um ar local é mais gostoso. É uma experiência da realidade cultural daquele local. Os hotéis de rede têm qualidade e consistência, o que agrada a determinados perfis de clientes. Mas muitos viajantes valorizam essa experiência mais autêntica e ligada à cultura do destino.
“A hotelaria independente não precisa se prender a padrões pré-definidos por uma rede, podendo ser mais aconchegante ao reunir características locais mais bem definidas o que torna um grande diferencial”
RH: Como está o cenário de novos empreendimentos e a concorrência com plataformas de locação de curta duração?
MVB: Não estamos vivendo um momento de grandes lançamentos hoteleiros. Já o mercado de locação de curta duração teve um boom imobiliário importante e precisa ser tratado com cuidado, principalmente em relação à legislação e à equidade tributária.
Quando analisamos os dados de mercado, vemos que a diária média dos hotéis é de três a quatro vezes maior que a dos imóveis de locação de curta duração. Isso mostra que o cliente percebe valor no produto hoteleiro: segurança, recepção, serviços, café da manhã, limpeza e room service. São comodidades importantes pelas quais o hóspede está disposto a pagar mais.
RH: Quais são hoje os principais gargalos da hotelaria paulista?
MVB: A segurança sempre é uma preocupação, especialmente na região central, embora tenha melhorado com os projetos de revitalização. Outro desafio importante é a mão de obra, que hoje é um gargalo não apenas para a hotelaria, mas para diversos setores no País. E, claro, o trânsito também impacta a mobilidade dentro da cidade.
RH: Como você avalia o turismo no estado de São Paulo?
MVB: O estado de São Paulo tem uma vantagem que poucos destinos possuem: um enorme gerador de demanda, que é a própria cidade de São Paulo e a macro-região até Campinas, que tem cerca de 40 milhões de pessoas. Isso impulsiona o turismo no interior e no litoral. E um dado que é importante destacar é que a maior parte dos hóspedes que vão para um hotel viaja dentro de um raio de 400 a 500 km, o que inclui cidades do Rio de Janeiro, Curitiba e o interior paulista. O turismo no interior paulista é sustentado pela demanda gerada na capital. O acesso é fácil para esses destinos, seja por vias rodoviárias ou aéreas, já que São Paulo conta com bons aeroportos e grande volume de voos. Um exemplo é o “Circuito da Águas”, que recebe grande volume de visitantes principalmente aos finais de semana. É aquele turista híbrido, que vem à São Paulo para trabalhar e aproveita o final de semana para conhecer outros lugares.
RH: Como você avalia sua gestão à frente da ABIH-SP até agora?
MVB: Tenho a sorte de contar com uma diretoria extremamente qualificada. Todos os nossos diretores são proprietários de redes de hotéis, ou de hotéis independentes, ou executivos de redes grandes. Isso traz muita segurança para o trabalho da entidade.
Estamos atuando em três frentes principais: capacitação de mão de obra e de hoteleiros, geração de valor para os associados e profissionalização da associação.
Nós temos o Portal do Hoteleiro em parceria com a Revista Hotéis que é referência no mercado há tanto tempo, o que só aumenta a credibilidade do nosso trabalho. Apesar da ideia ter nascido na gestão anterior, foi implementada na minha gestão e é uma ferramenta relevante para a capacitação dos hoteleiros.
Uma outra frente que nós trabalhamos é mostrar porque vale a pena ser nosso associado. Temos participado junto com a ABIH Nacional nas negociações com o governo, atento as novas regulamentações, como FNRH digital. Por exemplo, temos feito eventos para orientar a utilização dessa nova ferramenta. Tem a questão da jornada de trabalho, que estamos acompanhando de perto e vamos ver quais são os impactos disso, como que a gente pode ajudar para que a hotelaria não seja prejudicada. Isso é uma parte do que nós fazemos para nossos associados. Temos também divulgações no nosso site como as pesquisas de Desempenho da Hotelaria Paulista dividido por região, e que acaba servindo de base para o Conturesp.
E o terceiro pilar que é aumentar a relevância da associação através da profissionalização. Atualmente estamos no processo de profissionalizar a associação para que tenha um executivo profissional contratado. No modelo vigente os diretores, assim como eu, dedicamos um tempo livre de forma gratuita, em prol do nosso mercado. Se quisermos avançar como uma associação que representa de fato os interesses dos hoteleiros, temos que profissionalizar esse negócio e trabalhar mais intensamente. Queremos efetivar a profissionalização o quanto antes, espero que ainda durante o meu mandato.
“Estamos atuando em três frentes principais: capacitação de mão de obra e de hoteleiros, geração de valor para os associados e profissionalização da associação”
RH: Fale um pouco sobre o programa de retrofit tecnológico e qual a importância para os hotéis?
MVB: Criamos um programa para ajudar os hotéis a se prepararem melhor nesse aspecto. Algumas tecnologias já deixaram de ser diferenciais e se tornaram necessidades, como uma internet rápida e estável.
Também trabalhamos com soluções que melhoram a eficiência operacional e reduzem impactos ambientais, como sistemas de monitoramento de consumo de energia e água. Além disso, há tecnologias voltadas à experiência do hóspede, como controle de iluminação e automação de ambientes.
RH: A ABIH-SP também promove rodadas de negócios e compras colaborativas. Como funcionam essas iniciativas?
MVB: Promovemos rodadas de negócios em que fornecedores e hoteleiros podem conversar diretamente e fechar acordos. Fazemos esses encontros não apenas na capital, mas também em diferentes regiões do estado. No ano passado fizemos reuniões com os associados em Campos Jordão, em Ribeirão Preto, Guarujá, São Sebastião, Campinas, Socorro. Estamos indo até os associados, porque as demandas são diferentes em cada destino.
Além disso, participamos da plataforma de compras colaborativas Solution4Hotel, que tem ABIH Nacional como um dos sócios da plataforma, que busca ganho de escala. Quanto mais hotéis compram juntos, maior o poder de negociação e menor o custo unitário. Isso beneficia especialmente os hotéis menores, que conseguem o benefício na negociação de volume, porque se junta de forma associativa para comprar. E estamos tendo muita aderência nessa plataforma.
RH: Como enxerga a atuação da ABIH/SP com entidade co-irmãs e os passos nos próximos anos?
MVB: Acredito que a ABIH-SP vem conquistando cada vez mais credibilidade no mercado, junto às entidades parceiras da hotelaria como o FOHB, como a Resorts Brasil, entre outras e também com o poder público. Uma associação forte depende de credibilidade, e isso se constrói com trabalho sério, objetivos claros e entregas concretas. Temos uma diretoria formada por profissionais muito relevantes no mercado hoteleiro brasileiro, e é uma honra estar à frente dessa entidade. Acredito que estamos no caminho certo.




